Do Valor Econômico: Santos, o pastor que controla o Grupo Galileo

Adenor Gonçalves dos Santos, pastor da Aliança Batista Social no Brasil, gosta de ser chamado de Dr Adenor. É dono, segundo sua página na internet, da Izmir Participações, que reúne um leque de empresas em diversos setores – de petróleo a construção civil, passando por publicidade, rádio, TV e hospitais. Também controla, há oito meses, o grupo Galileo Educacional, que administra a Gama Filho e a UniverCidade, duas tradicionais universidades cariocas imersas em uma sucessão de crises há pelo menos dez anos.

O site de Santos informa que ele nasceu na cidade de Jabaquara, na Bahia, teve uma infância pobre e aos 17 anos já apresentava programas religiosos numa rádio em Salvador. Tem 19 livros escritos e graduou-se em Ciências Jurídicas, Ciências Administrativas, Teologia, Contabilidade e Jornalismo. Mas a página na web não informa como o pastor tornou-se empresário, dono de várias companhias. Tudo é atribuído à graça de Deus. Santos também compra horário na TV Bandeirantes e entrevista artistas, pastores e políticos cariocas.

O site do Tribunal de Justiça do Rio lista uma série longa de processos, civis e criminais, movidos contra Santos. O pastor também é investigado por possuir dois CPFs registrados na Receita Federal.

A crise nas suas duas universidades vem se agravando. No dia 1º deste mês de julho, o Ministério da Educação (MEC) determinou a suspensão dos vestibulares para graduação, transferência ou pós graduação das duas universidades em função do descumprimento de compromissos assumidos pelo grupo. Segundo o MEC, em março, foi imposta uma série de obrigações à Galileo por conta de denúncias de irregularidades.

O ministério já havia notificado a mantenedora, a Galileo Administração de Recursos Educacionais S/A, em dezembro do ano passado, mas a situação não foi regularizada. O MEC informou ainda que a Galileo não comprovou capacidade financeira para tocar o negócio.

Em julho, a Galileo suspendeu o pagamento a funcionários. Alegou que a taxa de inadimplência dos alunos havia subido a 40%. As aulas foram suspensas.

O controle da Galileo passou às mãos do pastor no fim do ano passado, em uma operação feita pelo advogado Marcio Andre Mendes Costa, fundador da Galileo.

Em 2010, depois de ser coordenador do curso de direito da Gama Filho e prestar serviços para a escola, Costa criou a Galileo e negociou com a família Gama Filho a transferência da universidade Gama Filho, que acumulava dívidas, à Galileo. Com a ajuda do Banco Mercantil, Costa fez um empréstimo inicial de valor não revelado e montou uma emissão de debêntures de R$ 100 milhões. Os papéis foram vendidos a fundos de pensão, como Postalis e Petros. O dinheiro que seria utilizado para sanear a Gama Filho foi usado em parte para colocar a UniverCidade, também endividada, no portfólio da Galileo.

A administração de Costa também fracassou. Pelos menos dois

campus

foram fechados, o do Centro e o do shopping Nova América, em Del Castilho, na zona norte do Rio. Os convênios com hospitais que eram utilizados pelos alunos do curso de medicina da Gama Filho, o carro-chefe da universidade, foram suspensos.

 

O deputado estadual Paulo Ramos (RJ/sem partido), presidente da comissão parlamentar que investiga o caso das universidades, suspeita que Santos e Costa fazem parte de um mesmo grupo. “Estávamos investigando a administração do Márcio André [fundador do Galileo], quando fomos surpreendidos pela venda do grupo”, diz Ramos. “Convocamos os dois empresários a comparecer e dar explicações, mas nenhum dos dois apareceu”. Para ele, a criação da Galileo permitiu a transferência das universidades a um novo dono, sem autorização do MEC e, com isso, fraudes foram acobertadas.

O relatório final da CPI, que deve ser votado na próxima semana, pedirá ao Ministério Público que investigue o grupo por não pagamento e apropriação indébita de impostos como INSS e FGTS, formação de quadrilha e estelionato.

Segundo Alex Porto, diretor presidente da Galileo, a negociação entre o advogado Costa e a Izmir, do pastor, começou em junho do ano passado. A companhia do pastor foi convidada por Costa a estudar a compra de um hospital na Barra da Tijuca, de 74 leitos, que a Galileo estava construindo para a Gama Filho. O estabelecimento não foi aprovado pelo MEC como de uso universitário. A Izmir acabou interessando-se pela Gama Filho. E o controle da Galileo foi para as mãos do pastor.

Os novos gestores prometeram investimentos, terminar e ampliar o hospital, que agora teria 220 leitos, a um custo de R$ 14 milhões. A promessa incluía escalonar os pagamentos em atraso e quitar as dívidas até o fim do ano passado. O passivo trabalhista era de cerca de R$ 6 milhões, em maio. Porto afirmou que garantiria o emprego de todos os funcionários até 2013.

Hoje são 13 mil alunos na Gama Filho e oito mil na UniverCidade. Em maio, em entrevista ao Valor, Porto disse que a receita das unversidadess era de R$ 23 milhões e a folha dos funcionários, R$ 7,5 milhões. Mas depois de suspender o pagamento a funcionários, ele informou que a receita havia baixado a R$ 10 milhões, o que inviabilizava o fluxo de caixa.

A Galileo informou que seu patrimônio é hoje de R$ 1,6 bilhão e que o projeto de reestruturação das universidades ainda está em discussão com o MEC. A dívida gira em torno de R$ 900 milhões.

O grupo também informou que não iria responder as acusações feitas ao Dr Adenor. Procurado, o advogado Costa não atendeu às ligações.

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